quinta-feira, 18 de março de 2010

Sobre a paixão, poupo esse desajuste que há em mim. Sobre mim, que a paixão não poupa, que me faz tragar a refeição de todos os dias como se fosse a dor inerente. O meu alimento propriamente dito, a droga pura e mais viciante. O engolir da lâmina que me fere. E sangro enquanto vivo, e me engolfo absorto na embriagues estapafúrdia de meu sangue.

Sobre mim não os poupo. Porque eu não me entendo. Porque meus versos não são mais que uma anestesia à esse apêndice, que carrego curvado sob o peso em minhas costas. Porque ser apaixonado é irresponsável, é me degenerar até que a carne exposta de minha pele sofra ao mundo, imundo dos homens, ao tempo, perdurador dessa fantástica dor. Sou fanático por ela, e morrerei apenas quando esta paixão acabar. Os anos a mais nada significarão. Os meus atos além dela se tornarão triviais, e a minha vida terá sentido quando meu corpo se desvanecer junto a ela, a paixão, que se elevará como uma lembrança nostálgica ao mundo que já conheceu o amor. O amor, se me restar morrer por ele, que o seja. Mas restam ainda paixões dignas de minha contraditória existência. E descobri que quero viver por elas. E quando houver a reciprocidade de outrem à essa dor, haverá de se tornar esse precipício, gigantesco, o magnífico fim, a grandiosa mágica de sentir a plenitude de viver, a apoteose às perduráveis dúvidas e súplicas de nós meros mortais, e não farão mais diferença, meros pesadelos ou céus e o infinito.

E vou me reconstruindo de amores.