Se eu fosse um músico,
Dedilharia em meus dedos as nuvens que correm no céu,
Recitaria meus segredos aos homens que dormem no breu
Se eu fosse um pássaro,
Perseguiria com minhas asas o sol que se esconde,
Cantaria ao vento a música desconhecida aos homens
Se eu fosse uma nuvem,
Choraria por tudo aquilo que insiste em ser,
Choraria pelo que o homem é por querer se tornar
Se eu fosse uma árvore,
Afloraria à nostalgia dos tempos, arte remota,
Sombrearia um louco que ainda visse em mim a materna reflexão
Se eu fosse uma montanha,
Declamaria a voz da terra, aos cegos, mudos e surdos, hommo sapiens
Seria um atalho ao céu, apoteose aos loucos olhos de quem se curou
Se eu fosse um cego,
Me apaixonaria à luz, quando descobrisse que eu sou ela,
E iluminaria ao caminho, que todos os olhos devem seguir
Se eu fosse o caminho,
Me perderia de amores, aos amores que tentam guiar em mim,
Essa primavera eterna de ardores, veemência às dores
Se eu fosse a primavera,
Com flores presenteava aos que ao vento se esperançam,
Com saudade inflava aos amores, que ao leito florido descançam
Se eu fosse só um humano,
Às flores buscava, únicas em tremenda simpatia à pluralidade minha,
Debaixo do céu descansava, e dormia até que o sonho me revelasse,
Se eu fosse um sonho,
Aos homens ensinava a poesia de amar, apaixonadamente,
Em caminhos de inverno, nuvens ou cegueira, caminho infalível ao poeta
Cara fantasia,
Sou um perdido em tua verve, hipocondríaco, mas não sou um
Ensaiador à cegueira, meu breu preferível à morte
Se eu fosse um poeta,
Me embriagava às dores da fantasia, luz de mim que me desencaminha,
Caminho da perdição, nos amores, atalho ao louco de mim que procura o céu,
E se apaixona antes de encontrá-lo,
E encontra-o antes de cantá-la, a paixão que me leva
A ser mais do que só um ser humano,
E a poesia se torna o céu, antes que o caminho da perdição de amar
Leve-me e esqueça-me