sábado, 1 de outubro de 2011

Memorial

Testemunha aqui algo que condiz ser este tempo um marco visível de uma mudança

Concordo que todos os tempos são, por definição, a própria mudança. Mas algo de 'positivo' aconteceu, ou ao menos algo legítimo sob todas as ilegitimidades e negatividades do Mundo.

Penso ser o resultado disso uma maior objetividade, uma concretude do Estar, uma tentativa verdadeira do Ser.

Tomo como 'objetividade' tudo que parte do pressuposto de que Tudo é provisório, e na eternidade Tudo será substituído; logo, nem o Todo está como "sempre" esteve.

Percebe-se aqui que eu alterno significados diferentes de tempo, mas o que importa agora é tratar da dimensão presencial das coisas, ou seja, o tempo passa a ser elemento da Presença, mas nem ele nem nada definem, limitam ou traduzem o que é a verdadeira presencialidade.

Cabe então ressaltar que, dentre as mil interpretações possíveis de qualquer coisa, dentre os diferentes focos e perspectivas, no meio de todas as corrupções e deturpações, nada vive ou se constrói com a qualidade ou a potencialidade de tanger intocadamente a Presença. Até o mais profundo limbo do mais pútrido abismo converge, de alguma forma ou nalguma dimensão, à Presença.

Tendo um conceito tão ampla e profundamente fundamentado de Presença, que essencialmente faz parte de todas as coisas, qualidades e ações, como Ação fundamental do Ser-Sendo no espaço de Tudo quanto existe, não me prestarei mais na tentativa de definir ou  redefinir o meu próprio ser ou de encontrar maior razão para os meus atos.

O que eu quero aqui é evitar preconceitos, neuroses, paranóias, enfim, considerar as coisas e eu mesmo em seus respectivos lugares, mesmo sendo eu o sujeito criador disso tudo.

E isso é bem difícil pra mim, que antes de agir penso várias vezes, e antes de pensar o faço fundamentalmente baseado em alguns pré-conceitos. Acho, mas quero Saber ser possível não se afogar no mar da loucura se emancipando de todos os grilhões.

A única singularidade é: este ponto( . ) não é, nunca foi e nunca será absolutamente igual este ponto ( . ).

sábado, 6 de agosto de 2011

Quando sem artifícios poéticos, me pergunto: há quanto tempo não escrevo? Há quanto as rotinas esmagadoras me sufocam? Também penso que eu não deveria falar em rotinas, pois eu sou elas, foi por mim que não passou o Intento. Criei barreiras a Ele, fracassei em intervir no que me intervêm.

Ao pensar em como é difícil viver uma vida de obscuridades, de questionamentos e indagações, me vejo na  pele de quem aparenta não se preocupar com essas coisas: seria tão mais fácil contar com o previsível. Será mais um adorno dessas pessoas? Não tenho como a isso responder. Mas sei que eu não tenho "uma aparência", que eu não me ponho máscaras nem armaduras, e sofro mais por isso, sofro em dobro pelas intempéries...

Tenho vontade de tacar um grande Foda-se às "obrigações", aos poderes temporais e espirituais, mas sinto que não estou  pronto...

Me sinto como se eu estivesse sentado contemplando o pôr do sol, mas tinha um formigueiro debaixo da minha bunda, e agora estou sofrendo as consequências...

O segredo é apunhalar-me com o sentimento de Presença, enfiar a cara no formigueiro, lutar contra as agonias que me visitam, deixar que as formigas carcomam as minhas vísceras... até não sobrar carne, matéria, convenções, vícios, viciosidades...

Sobrará o imune. 




  

quarta-feira, 13 de julho de 2011

janela num muro

Certa feita um sábio escreveu: "Sê presente em cada alento"...
Os versos me fizeram pensar na ingratidão para com a vida.
Os problemas incham a atmosfera das cidades e das pátrias,
que em verdade são as piores apátridas... O berço esplêndido esvai-se
nos quadros do senado, encharcados de uma glória sangrenta que riu-se
da História do Povo e das músicas e danças locais

Whitman diria "Presencie a respiração da terra!"; sou patriota da Terra!,
quero viajar até minha Pátria,
embrenhar-me solitário na selva e nas multidões

Do progresso da terra sem alentos
não se traduz liberdade ou ordem; clamam por crimes capitais
para justificar a justiça e seus anais. Dos monumentos da controvérsia
se explanam os maniqueísmos contra os versos das coisas e os versos,
mas a moeda não tem só um lado, o caminho não tem só uma direção
e a Poesia não tem regimento

Os elementos-problema são o Estado,
o estado de espírito dos sujeitados aos problemas e medos convencionados.
Contra o mar só há o penhasco!
contra um lado tem o outro,
contra a gente tem a gente

Qualquer problema parece mera cagada de pássaro
quando tomamos aquele do ácido corrosivo de pessoas,
criador de personalidades-adorno do nosso belo quadro social;
sua mãe ou cria que é a mercadoria, vende-o também nas universidades
catalogadoras de um moderno Index Librorum Prohibitorum,
e cai em sítios rasos a reflexão de dotes profundos...

Que os regimentos e estatutos façam-se em poesia!
Pois o amor é como mato que brota no concreto
e paixão é a flor que desabrocha em drama e murcha em tragédia.
Mas não há deleite maior nem trabalho divino que ofusque
o insistente labor das abelhas a distribuir seus secretos frutos
alheia aos apaixonados que insistem no concreto de pouco sumo
ou cega aos que desistem e anseiam tornar-se um tijolo no muro

Mas há propósito em tornar-se do muro,
pois aqui isso ainda é como apoderar-se do "mundo".
Quem compartilha do nomadismo conceitual
haverá de ser tijolo pra lá de desigual
que não aceita ser pintado sem trabalho em dobro
do responsável por desaparentar de tudo isso o engodo
que é o muro alvo e branco da sociedade ideal

Sopro que entra nessa janela não é vento nem alento.
Se entrar vento nela, é moldura, ceifa a leve ternura
da brisa gratuita dada no Nascente a acobertar as criaturas
e o andarilho que deixou metros quadrados e cúbicos ao léu
do vento que não se mede em anemômetro, mas em carícias
às folhas e às asas do que por acaso saiu à Casa dos aristocratas
da razão e da sorte de viver cem mil sóis sem casas